Um toque brasileiro no suspense: como o remake de Quarto do Pânico trouxe um ar renovado ao clássico de David Fincher em entrevista exclusiva

Uma nova versão do clássico suspense “Quarto do Pânico” estreou no Festival do Rio 2025, trazendo uma perspectiva brasileira para a história original de David Fincher. A trama segue uma mãe e sua filha adolescente que se mudam para uma mansão luxuosa em uma área nobre da cidade, apenas para serem invadidas por três bandidos em busca de um cofre valioso escondido em um quarto fortificado.

Essa releitura brasileira, dirigida por Gabriela Amaral Almeida, trouxe uma nova abordagem dramatúrgica e uma perspectiva fresca para a história. Segundo a diretora, o filme é completamente novo, pois parte de uma situação de trauma específica e recontextualiza os fatos do filme original para a realidade brasileira. “Acho que ele é um filme inteiramente novo porque ele parte de uma situação de trauma muito específica. Ele recontextualiza os fatos do filme original para a realidade brasileira e, por mais que se reconheça alguns eventos em comum com o filme do Fincher, acho que é um filme de carpintaria dramatúrgica nova, de abordagem das relações nova, e com uma maneira de filmar também diferente”, comentou Gabriela.

O roteirista Fábio Mendes, responsável pela adaptação da trama original, concorda com a diretora e afirma que o maior desafio do projeto foi traduzir uma história tão americana para um contexto brasileiro. “É um filme de 20 anos atrás, então, muita coisa mudou. [Nosso desafio era] pegar a premissa e o DNA forte do longa e adaptar para uma realidade nossa, que encantasse e dialogasse com os brasileiros, com a gente. A questão da violência urbana, então, é muito forte, e acho que só piorou em 20 anos”, afirmou Mendes.

Uma das principais diferenças entre a versão original e a brasileira é o tema da insegurança pública, que motiva as protagonistas de maneira diferente. No enredo adaptado, a personagem Mari, interpretada por Ísis Valverde, vive o luto da perda do marido, que é assassinado durante um assalto à mão armada. A partir desse evento traumático, ela procura se blindar do perigo ao buscar uma casa ultraprotegida, com um sistema de segurança e monitoramento avançado e um quarto fortificado.

A diretora Gabriela Amaral Almeida comenta sobre o espírito claustrofóbico da trama e do estado mental das protagonistas, algo já explorado em seu longa de estreia “O Animal Cordial”. “Narrativas concentradas dão, tanto ao realizador, quanto ao escritor, uma possibilidade de explorar diversas facetas de uma só questão, tanto do ponto de vista dramatúrgico, quanto do ponto de vista da mise-en-scène da câmera”, disse ela.

No caso de “Quarto do Pânico”, a casa blindada reflete os medos e o sofrimento de Mari, reverberando o cenário social inseguro e violento de um país profundamente desigual. Foi essa visão afiada de Gabriela Amaral para os problemas do país que convenceu o ator Caco Ciocler a embarcar no papel de Raul, o mais misterioso e ardiloso entre os três invasores.

“Quando eu vi o original, que é um clássico, eu não entendi porque fazer esse filme. Achei uma história meio envelhecida. Foi inteligência dela [da Gabriela Amaral Almeida] sacar que nós, no Brasil, estamos acostumados com uma certa vulnerabilidade da violência urbana que, nos Estados Unidos, soa um pouco estranha. Essa coisa de estar sempre achando que alguma coisa pode acontecer. Já andamos com medo pela cidade. Ela trouxe esse medo brasileiro de um jeito muito inteligente”, declarou Ciocler.

A briga de gato e rato que se segue durante os 98 minutos de filme mantém todas as dinâmicas em suspenso e brinca com essas camadas sem deixar os elementos de apreensão e expectativa de lado. O desfecho, aliás, após um clímax intenso, coloca Mari no protagonismo da resolução, uma escolha narrativa bem diferente da de Fincher e Koepp.

“A questão entre mãe e filha, o embate entre classes sociais diferentes, o embate entre feminino versus masculino. Essas questões me interessam investigar e aprofundar, tanto em câmera, quanto em atuação e direção. Eu não revi o filme do Fincher porque eu acho que é um autor com sua poética, sua visão de mundo, sua realidade. Um artista está dentro de um contexto, ele não é uma coisa isolada. Ao não rever, isso me permitiu investigar as novas situações dramáticas como se fossem, de fato, filme inédito”, disse Gabriela Amaral Almeida.

O Festival do Rio 2025 aconteceu entre os dias 2 e 12 de outubro, com direito a uma repescagem entre os dias 13 a 15 de outubro, oferecendo uma plataforma para que o público brasileiro possa apreciar essa nova versão de “Quarto do Pânico” e refletir sobre os temas e questões que a diretora Gabriela Amaral Almeida busca explorar em sua obra.

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