Dizer que todos os filmes sobre ditaduras militares são iguais é um equívoco grave e um discurso perigoso. A cineasta Flávia Castro aborda a memória dos regimes militares na América Latina de forma pessoal e lúdica em “As Vitrines”, que faz parte da programação do Festival do Rio 2025.
Após estrear no Festival de Biarritz, na França, o filme teve sua primeira exibição no Brasil na última segunda-feira, 6 de outubro, no Estação NET Botafogo, um tradicional cinema de rua da Zona Sul carioca. Além de “As Vitrines”, Flávia Castro também apresenta o drama “Cyclone” na programação do evento.
A história se passa em 1973, quando o Chile sofreu um golpe militar liderado por Pinochet. Nesse cenário perigoso, a embaixada da Argentina se torna um refúgio seguro para centenas de militantes de esquerda que aguardam um visto para deixar o país. É lá que Pedro (Gael Nórdio) e Ana (Helena O’Donnell), filhos de ativistas políticos brasileiros exilados em Santiago, se conhecem. Embora seja um filme de ficção, a história é inspirada na infância da própria Flávia, que passou quatro meses esperando por um visto com sua família em Santiago.
Na abertura da sessão, Flávia destacou que havia pessoas presentes que estiveram refugiadas na embaixada da Argentina na vida real, incluindo sua mãe. O grupo foi aplaudido pelo público antes do início do filme. Com uma disposição de cena quase teatral, as cenas mostram como a rotina dos adultos gira em torno de reuniões, racionamento de comida e espaço, enquanto as crianças lidam com as consequências desse cenário. Pedro está angustiado com a segurança de sua mãe, que ainda está fora, enquanto Ana se deslumbra com as possibilidades de olhar para o mundo através dos cacos de vidro coloridos do jardim do prédio.
Em entrevista exclusiva, Flávia Castro reforça que narrar esse momento pelo olhar infantil não é um recurso, mas algo essencial para ela: “Eu não consigo imaginar de outra forma, porque é o olhar que eu tinha naquela época. Então, eu acho importante continuar fazendo esse trabalho de memória. A arte e o cinema trazem a possibilidade de olhar para esse tempo a partir da subjetividade de quem o experimentou”.
As crianças que ocupam os espaços da embaixada não são ingênuas e estão cientes da situação em que se encontram. O filme apresenta momentos adoráveis e elucidantes nos quais Pedro e Ana demonstram mais maturidade e pensamento crítico do que os adultos que os cercam. A dupla de protagonistas reflete a perspicácia de seus personagens, tendo sido escolhidos por essa característica. Gael Nórdio, que interpreta Pedro, relembra que aprendeu sobre as ditaduras militares da América do Sul no colégio e pôde fazer associações importantes entre o conteúdo escolar e a experiência no set.
Já Helena O’Donnell, que dá vida a Ana, tinha noção dos acontecimentos históricos da ditadura militar por causa de sua família, mas destacou que ganhou uma dimensão emocional maior ao longo das gravações. “Eu senti que aprendi muito naquele momento, porque mesmo tendo um pouco de bagagem, a imersão fez a parte de contar essa história muito real e muito verdadeira”, compartilhou. Helena destaca que o visual de “As Vitrines” reflete a mensagem do roteiro, que passeia entre o lúdico e a dureza da realidade para recupar e manter viva a memória e o impacto humano dessa época nos países afetados pelo autoritarismo.
O Festival do Rio 2025 acontece oficialmente até domingo, 12 de outubro, e contará com sessões de repescagem selecionadas na próxima semana. Os ingressos estão à venda no site do evento e nas bilheterias dos cinemas parceiros.












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